Campanhas de prevenção rodoviária sem pára-choques?

A avaliação da eficácia das campanhas de prevenção na diminuição do número e gravidade de acidentes rodoviários é muito difícil de empreender. Mesmo que se comprove que as pessoas retiveram a mensagem tal não implica que os seus comportamentos na estrada se modifiquem em conformidade. Ter informação não é sinónimo de estar persuadido.

É certo que sem informação a sua conduta na estrada não poderia ser minimamente adequada. As crianças, por exemplo, têm de aprender o que significa um sinal vermelho. Mas quando se trata de campanhas televisivas ou de imprensa com o objectivo de induzir o público, em geral, a rever a sua atitude nas estradas a tarefa é mais vasta e árdua.

A maioria das campanhas de prevenção rodoviária recorrem ao medo e/ou à ameaça para transmitir a sua mensagem de modo mais premente. A própria informação dos meios de comunicação social sobre este tema foca essencialmente os acidentes mais aparatosos e dramáticos e a contabilização dos mortos (como na recente “Operação Páscoa”). Esta incidência no “factor medo” pode nem sempre ser a mais eficaz porque o condutor individualmente, ante a tragédia que lhe é comunicada, fica com a percepção que tem competências de condução acima da média e que está mais seguro do que os outros – aquilo que se poderia designar por síndrome “eu é que sou o melhor condutor do mundo”.

Apesar de toda a controvérsia as campanhas que recorrem ao medo são, em geral, consideradas as mais eficazes. No entanto, o nível de temor suscitado deve ser o adequado à mensagem transmitida e ao respectivo público-alvo.

A televisão é considerada o meio mais eficaz. Todavia, se não for acompanhada por acções noutros meios (principalmente, rádio e imprensa) e se não tiver a exposição e intensidade apropriadas, não terá a mesma eficácia

As campanhas dirigidas a grupos etários específicos (como sejam as crianças e o jovens) ou a grupos de risco particular (consumidores abusivos de álcool) exigem canais suplementares e mais directos para veicular a mensagem, como sejam a escola, a família ou o grupo de amigos no caso das crianças e jovens.

As crianças e jovens são, aliás, um alvo preferencial das mensagens de segurança rodoviária precisamente por que estão mais receptivos a alterar o seu comportamento. Estão nas antípodas dos utentes da estrada com mais idade para quem os alvos das campanhas são sempre os outros, nunca eles próprios. Contudo, o exemplo e o comportamento dos pais são determinantes na conduta adoptada pelos mais novos. Para além disso, a segurança de bebés e crianças no automóvel é da inteira responsabilidade dos condutores. As campanhas para sensibilizar os pais sobre a importância de transportarem as crianças adequadamente são, assim, de crucial importância.

Apesar de todas as incertezas quanto aos resultados obtidos com determinadas campanhas, a profusão das mensagens de prevenção rodoviária, a diferenciação dos canais utilizados para as difundir e a articulação com medidas repressivas, tem contribuído globalmente para alterar comportamentos e para melhorar as estatísticas da sinistralidade rodoviária.

A título de exemplo, as campanhas sobre a importância de uso de sistemas de retenção adequados para crianças, coadjuvadas pela alteração do Código da Estrada e pelas acções de associações como a APSI, a nível nacional, ou o Grupo de Alerta para a Segurança, em termos locais (Viseu), têm contribuído para reduzir o número de crianças transportadas sem recurso a qualquer protecção. Sendo certo que muitas cadeirinhas são mal instaladas e muitas vezes os cintos não estão bem ajustados às crianças, o progresso conseguido é um bom prenúncio e um incentivo para continuar o trabalho desenvolvido nesta área. 

Bibliografia:

Cameron, M., Delaney, A., Lough, B., Whelan, M. (2004). A review of mass media campaigns in road safety.

Henderson, Michael (1991). Education, Publicity and Training in Road Safety: A literature review.

Observatório de Segurança Rodoviária (2007). Sinistralidade Rodoviária 2006.

Simon Hayes (DSD), Susana Serrano (DSD), Laia Pagès Giralt (SCT), Pilar Zori (DGT), Yannis Handanos (Trademco), Dimitris Katsochis (Trademco), António Lemonde de Macedo (LNEC), João Lourenço Cardoso (LNEC), Sandra Vieira Gomes (LNEC) (2005). SUNFlower plus: a comparative study of the development of road safety in Greece, Portugal, Spain and Catalonia.

2 comentários em “Campanhas de prevenção rodoviária sem pára-choques?”

  1. A fundação da Juventude está a promover um Concurso Nacional “ Mais vale perder um minuto da vida, do que a vida num minuto!”
    Este concurso tem como objectivo principal sensibilizar os estudantes de ensino superior para a problemática da Educação e Sinistralidade Rodoviária Portuguesa.
    Gostaríamos de lhe pedir o favor de divulgar o nosso link no vosso blogue.
    Muito Obrigado!
    http://www.fjuventude.pt/a-vida-num-minuto-2012-2013/

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