A Casa dos Bebés – A Vida de Uma Maternidade

«[…] O objectivo estava traçado à partida: 19 horas na Maternidade Alfredo da Costa, a acompanhar a passo o que por lá se vive. Com entrada às 14h00  e saída às 09h00, assistimos a três mudanças de turno, a 15 nascimentos  e à expulsão de um feto que não sobreviveu às 23 semanas de gestação. No maior ‘centro’ de nascimentos do País, nem só de vida se fazem os dias. Nem só as alegrias enchem os corredores. E ali, os opostos tocam-se e convivem lado a lado. Nem mesmo o cenário é estanque: num momento, o silêncio, logo a seguir o caos.»

«[…] Na memória da Domingo fica o rosto congestionado do Afonso. Nasceu às 06h00. Tinha três horas de vida quando abandonámos a MAC. Sónia Amaro, a mãe, sorria.»

Reportagem publicada na revista Domingo do Correio da Manhã de 28.09.2008.

Sofrer por amor no feminino, ou o classicismo da mulher moderna

«[Carla Aguiar:] Sofrer por amor é uma condição humana ou particularmente feminina? Também há homens mal-amados, não?

[Maria Michelena:] Também há homem mal-amados, mas normalmente esses são os que se posicionam mais no pólo feminino, passivo. E até têm um sofrimento mais solitário, porque enquanto nós temos as amigas, para eles é muito humilhante e difícil falar dos males de amor. Mas é essencialmente uma condição feminina, talvez até pela sua natureza. Por causa da maternidade, as mulheres estão preparadas para esquecer-se de si e fazer sacrifícios por outro. Mas uma coisa é sacrificar-se por um bebé, indefeso, outra é sacrificar-se por um homem de 40 anos. O problema é quando as mulheres se confundem e começam a tratá-los como um bebé. Quando gostam de um homem, às vezes querem mimá-lo como a um bebé. Tudo bem se for recíproco, mas quase nunca é…

[…] A questão é que, ao contrário do homem, a mulher não é moderna, é clássica , e quer compromisso, quer família. O homem sempre foi moderno. O casamento inventou-se para o agarrar.»

O livro de Mariela Michelena “Mulheres Mal-Amadas” foi recentemente publicado em Portugal pela editora Esfera dos Livros.

Fonte: Excerto da entrevista da jornalista Carla Aguiar à psicanalista Mariela Michelena, Diário de Notícias 22-09-2008.

Este país é para velhos?

«A tendência não é animadora: o ano de 2007 foi o primeiro em que Portugal registou mais mortes (103 727) do que nascimentos (102 213), se excluirmos o fatídico ano da pneumónica, 1918. Em relação a 2006, a taxa de natalidade sofreu uma redução de cerca de 3000 nascimentos. Cada mulher portuguesa tem hoje uma média de 1,3 filhos – número que não assegura a substituição de gerações. Estima-se que, em 2060, o número de pessoas com mais de 80 anos vai triplicar e que nem os imigrantes, que têm conseguido dar fôlego às sociedades modernas envelhecidas, vão salvar as estatísticas. Noutro pólo, os números da infertilidade não param de aumentar – estima-se que um em cada seis casais tem problemas de fertilidade, o que representa 10 a 15% da população. Consequência disso, nascem todos os anos em Portugal entre 700 a 900 bebés fruto das novas técnicas de reprodução assistida»

Fonte: Correio da Manhã, 28.09.2009 

A gravidez da Ministra da Justiça francesa e o poder

«Para os detractores, a gravidez da ministra da Justiça foi a melhor coisa que aconteceu a esta filha de imigrantes magrebinos que se tornara na estrela do Governo Sarkozy, mas enfrentou nos últimos meses uma vaga de contestação
[…] O novo perfil de “mãe coragem”, aos 42 anos, e os rumores sobre a paternidade e mesmo o sexo do bebé, silenciam por estes dias, na imprensa, a revolta dos magistrados contra as reformas na Justiça, e as críticas do seu próprio partido à sua “inexperiência” num cargo ambicionado há muito pelos “ilustres” da formação.
O anúncio da gravidez de Rachida Dati, controlado ao mínimo detalhe pelos assessores de comunicação, voltaria assim a editar a estratégia, utilizada por Nicolas Sarkozy no passado, que consiste em abrir as portas da vida privada, para ultrapassar os becos-sem-saída da vida política.
[…] Dati, já não é como no passado uma amiga próxima do casal presidencial, depois da saída de cena da antiga primeira dama Cecília Sarkozy, com a qual partilhava confidências e um vestiário privado na loja Dior.
A ministra já não beneficia assim do apoio incondicional do Presidente, que no passado lhe permitiu ultrapassar os escândalos ligados aos problemas judiciais de dois dos seus 12 irmãos, condenados por tráfico de droga, ou as críticas ao seu carácter inflamável que levou à saída de sete dos seus assessores.
Distante das recepções sumptuosas que quase esgotaram o orçamento do ministério da Justiça e que ensombraram o perfil de “filha dos subúrbios”, a ministra aposta agora na sobriedade do vestuário pré-mamã.
Há um ano atrás, a filha de um casal de humildes imigrantes argelinos e marroquinos era a estrela de um Governo dito de “diversidade” e de renovação, ao lado do também atípico Sarkozy.
Hoje, como mãe solteira e muçulmana praticante, resta-lhe a vitória no combate contra os preconceitos que continuam a agitar a sociedade francesa.
Mas, se há 20 anos conseguira obter o divórcio de um casamento organizado pelos pais, muçulmanos conservadores, hoje, como ministra e mãe solteira, não parece resistir aos conservadores do seu partido, que lhe recusaram o ambicionado cargo de presidente da federação de Paris do UMP.
[…] À beira de chumbar no teste de confiança política, o resultado de um teste de gravidez, para lá de uma vitória pessoal, pode garantir-lhe uma saída de cena, em beleza.
Resignada a abandonar os corredores do Eliseu, a lutadora Dati admite já uma candidatura à Câmara Municipal de Paris. Mas nas capas das revistas cor-de-rosa, que por estes dias assinalam o sobe e desce da popularidade dos políticos franceses, há um desafio ao novo protagonismo da ministra – o rumor de que Bruni poderá estar também grávida.
Dati já o sabia: a luta pelo poder nem sempre é um parto sem dor.»

Perfil da actual Ministra da Justiça de França, Rachida Dati, por José Miguel Sardo, Diário de Notícias, 13/09/2008

Um quarto das crianças gémeas nascem de Procriação Medicamente Assistida

«Na primeira metade da década de 1990 nasciam por ano pouco mais de dois mil gémeos em Portugal, mas nos últimos cinco anos esse número tem quase chegado aos três mil, revelam dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). A subida deve-se ao aumento dos tratamentos de infertilidade, explicam os especialistas.
Em fóruns de discussão na Internet diz-se que a probabilidade de um casal ter gémeos aumenta com a idade da mãe, quando a sua dieta é rica em leite, com a poluição, e a lista continua. “Tudo mitos”, resume Calhaz Jorge, responsável pela unidade de reprodução do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
O único factor espontâneo associado ao nascimento de gémeos explica-se pela tendência biológica de uma mulher produzir mais do que um óvulo por mês (“o padrão da espécie é um óvulo mensal”). “Quando existem na família pares de gémeos não iguais isso pode querer dizer que existe esta tendência biológica.” Mas a taxa espontânea de gémeos não vai além de um a dois por cento, afirma o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução (SPMR), Silva Carvalho.
Então, como se explica que em 1990 os gémeos representavam 1,7 por cento dos 116.321 nascimentos nesse ano e em 2007 já sejam 2,7 por cento dos 102.492 recém-nascidos? Para Silva Carvalho, a resposta é óbvia e deve-se ao aumento dos tratamentos de infertilidade.
Num estudo que fez em 2006, com Vladimiro Silva, o presidente da SPMR situa em 1987 – um ano após o começo dos tratamentos para a infertilidade no país – o início da subida dos partos gemelares, que até aí se tinham mantido estáveis. Essa subida é particularmente visível no caso dos trigémeos, por serem “os que menos ocorrem espontaneamente”, que cresceram 500 por cento de 1987 a 2002. Ainda assim, os números são baixos: os últimos dados do INE, referentes a 2005, dão conta de 38 partos de trigémeos (em três casos um dos fetos nasceu morto) e quatro partos gemelares superiores a três crianças nesse ano.
“Um quarto das crianças gémeas nascem de Procriação Medicamente Assistida [PMA]”, constata Silva Carvalho, o que inclui a fertilização in vitro e a injecção introcitoplasmática de espermatozóides. […] Silva Carvalho explica que estimativas internacionais apontam para 23,8 por cento de taxas de gémeos resultado de estimulação ovárica e 9,5 por cento de inseminação artificial. […]
Porque ter gémeos traz riscos, é visto como positivo o facto de o seu número parecer estar a estabilizar e até ter tendência para diminuir, concordam os dois especialistas. E isso tem uma explicação técnica: é que quanto mais embriões forem transferidos para o útero da mulher maior é a probabilidade de engravidar de gémeos, e esse número tem vindo sempre a cair na última década.
Há dez anos, a transferência de quatro embriões era prática corrente em Portugal; em 2000, em quase 60 por cento dos casos eram transferidos três embriões; e hoje a norma é um ou dois: em 2005 (último ano em que há dados de PMA), mais de 60 por cento dos tratamentos já se fizeram só com dois embriões. Há cerca de cinco anos descobriu-se que a partir de dois embriões a taxa de gravidez não diminuía mas reduziam-se as hipóteses de gravidez gemelar, diz Calhaz Jorge, mas “o ideal seria a transferência de apenas um”.
O problema é que os casais inférteis que recorrem a centros privados – alguns dos centros públicos têm listas de espera e impõem limites de idade mais estritos – são obrigados a gastar cerca de quatro mil euros (com medicação) por ciclo de tratamento e não querem arriscar diminuir a sua probabilidade de engravidar (as taxas de sucesso das PMA andam pelos 30 por cento), admite Silva Carvalho. […]
O coordenador do Programa Nacional de Saúde Reprodutiva, Jorge Branco, realça que “na PMA a gravidez gemelar é considerada uma complicação” e é, por isso, desejável que seja reduzida. Admite que “talvez haja algum exagero no privado no número de embriões transferidos” e espera que a comparticipação venha a diminuir o número de gémeos.»

Fonte: Jornal Público, 07-09-2008 (Catarina Gomes)

Partos fora do hospital na Figueira da Foz

«Os bombeiros da Figueira da Foz tiveram que fazer, mais uma vez, de parteiros, e ajudaram a nascer uma menina, o terceiro filho de um casal residente em Santa Luzia de Lavos. Foi o quinto nascimento registado no concelho fora do hospital – três foram na A14 e um numa garagem – desde que a maternidade da cidade fechou, em Novembro de 2006.»

Fonte: Correio da Manhã, 14-09-2008

Incentivos à natalidade em Trás-os-Montes

«Os autarcas trasmontanos tentam a todo custo preservar população na região, que, desde a década de 60, já perdeu cerca de 150 mil habitantes. Os incentivos à natalidade crescem e o valor atribuído também.

A Câmara de Vimioso foi a primeira Autarquia do país a premiar financeiramente quem decide ter filhos na terra. E são cada vez mais os municípios a aderir à iniciativa. A parada está a aumentar. Enquanto Vimioso atribuiu um subsídio de 500 euros por cada bebé que nasça no concelho, a freguesia de Lamas de Olo, em Vila real, subiu a fasquia até aos mil euros e uma mensalidade de 100 euros até as crianças fazerem 10 anos.

Há seis anos que a Câmara de Vimioso decidiu atribuir o apoio monetário aos casais que tenham filhos, desde então já foram entregues cerca de 80 mil euros e, mais importante do que qualquer verba monetária, já nasceram perto de 150 crianças. […]

Também as câmaras de Carrazeda de Ansiães e de Murça avançaram para os apoios à natalidade. A primeira dá 7500 euros aos casais até aos 35 anos que tenham o terceiro filho, e a segunda atribui 750 euros por cada nascimento. As juntas de freguesias de Provezende (em Sabrosa) e Arroio (em Vila Real) subsidiam com 250 euros cada nascimento.»

Fonte: Jornal de Notícias, 01/09/2008