A gravidez da Ministra da Justiça francesa e o poder

«Para os detractores, a gravidez da ministra da Justiça foi a melhor coisa que aconteceu a esta filha de imigrantes magrebinos que se tornara na estrela do Governo Sarkozy, mas enfrentou nos últimos meses uma vaga de contestação
[…] O novo perfil de “mãe coragem”, aos 42 anos, e os rumores sobre a paternidade e mesmo o sexo do bebé, silenciam por estes dias, na imprensa, a revolta dos magistrados contra as reformas na Justiça, e as críticas do seu próprio partido à sua “inexperiência” num cargo ambicionado há muito pelos “ilustres” da formação.
O anúncio da gravidez de Rachida Dati, controlado ao mínimo detalhe pelos assessores de comunicação, voltaria assim a editar a estratégia, utilizada por Nicolas Sarkozy no passado, que consiste em abrir as portas da vida privada, para ultrapassar os becos-sem-saída da vida política.
[…] Dati, já não é como no passado uma amiga próxima do casal presidencial, depois da saída de cena da antiga primeira dama Cecília Sarkozy, com a qual partilhava confidências e um vestiário privado na loja Dior.
A ministra já não beneficia assim do apoio incondicional do Presidente, que no passado lhe permitiu ultrapassar os escândalos ligados aos problemas judiciais de dois dos seus 12 irmãos, condenados por tráfico de droga, ou as críticas ao seu carácter inflamável que levou à saída de sete dos seus assessores.
Distante das recepções sumptuosas que quase esgotaram o orçamento do ministério da Justiça e que ensombraram o perfil de “filha dos subúrbios”, a ministra aposta agora na sobriedade do vestuário pré-mamã.
Há um ano atrás, a filha de um casal de humildes imigrantes argelinos e marroquinos era a estrela de um Governo dito de “diversidade” e de renovação, ao lado do também atípico Sarkozy.
Hoje, como mãe solteira e muçulmana praticante, resta-lhe a vitória no combate contra os preconceitos que continuam a agitar a sociedade francesa.
Mas, se há 20 anos conseguira obter o divórcio de um casamento organizado pelos pais, muçulmanos conservadores, hoje, como ministra e mãe solteira, não parece resistir aos conservadores do seu partido, que lhe recusaram o ambicionado cargo de presidente da federação de Paris do UMP.
[…] À beira de chumbar no teste de confiança política, o resultado de um teste de gravidez, para lá de uma vitória pessoal, pode garantir-lhe uma saída de cena, em beleza.
Resignada a abandonar os corredores do Eliseu, a lutadora Dati admite já uma candidatura à Câmara Municipal de Paris. Mas nas capas das revistas cor-de-rosa, que por estes dias assinalam o sobe e desce da popularidade dos políticos franceses, há um desafio ao novo protagonismo da ministra – o rumor de que Bruni poderá estar também grávida.
Dati já o sabia: a luta pelo poder nem sempre é um parto sem dor.»

Perfil da actual Ministra da Justiça de França, Rachida Dati, por José Miguel Sardo, Diário de Notícias, 13/09/2008

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