A mulher grávida merece tudo

«O Pai

Há quinze anos atrás, os dois se casaram, no civil e religioso, e, como todo mundo, numa paixão recíproca e tremenda. A lua-de-mel durou o quê?

Uns quinze, dezesseis dias. Mas, no décimo sétimo dia, encontrou-se Aderbal com uns amigos e, no bar, tomando uísque, de disse, por outras palavras, o seguinte: “O homem é polígamo por natureza. Uma mulher só não basta!”. Quando chegou em casa, tarde, semibêbado, Clara o interpelou:

“Que papelão, sim senhor!”. Ele podia ter posto panos quentes, mas o álcool o enfurecia. Respondeu mal; e ela, numa desilusão ingênua e patética, o acusava — “Imagine! Fazer isso em plena lua-de-mel!”. A réplica foi grosseira:

— Que lua-de-mel? A nossa já acabou!

Durante três dias e três noites, Clara não fez outra coisa senão chorar.

Argumentava: “se ele fizesse isso mais tarde, vá lá. Mas agora…”. A verdade é que jamais foi a mesma. Um mês depois, acusava os primeiros sintomas de gravidez, que o exame médico confirmou. E, então, aconteceu o seguinte: enquanto ela, no seu ressentimento, esfriava, Aderbal se prostrava a seus pés em adoração. Sentimental da cabeça aos pés, não podia ver uma senhora grávida que não se condoesse, que não tivesse uma vontade absurda de protegê-la. Lírico e literário, costumava dizer: “A mulher grávida merece tudo!”. No caso de Clara, ainda mais, porque era o seu amor. No fim do período, nasceu uma menina. E foi até interessante: enquanto Clara gemia nos trabalhos de parto, Aderbal, no corredor, experimentava a maior dor de dente de sua vida. Mas ao nascer a criança a nevralgia desapareceu, como por milagre. E, desde o primeiro momento, ele foi, na vida, acima de tudo, o pai. Esquecia-se da mulher ou negligenciava seus deveres de esposo. Mas, jamais, em momento algum, deixou de adorar a pequena Mirna. Incidia em todas as inevitáveis infantilidades de pai.

Perguntava: “Não é a minha cara?”. Os parentes, os amigos, comentavam:

— Aderbal está bobo com a filha!»

Extracto de “A vida como ELA é…” de Nelson Rodrigues.

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