Flagrantes Irreais

«Estando a minha mulher grávida, participámos num encontro patrocinado por uma marca de roupa para grávidas e bebés. A dada altura, a oradora perguntou quais são os primeiros sintomas de gravidez. Depois de várias respostas, um marido, visivelmente satisfeito, exclamou: – Aumento dos seios!

Paulo Sequeira, Alcains, Portugal»

in Selecções do Reader’s Digest, “Flagrantes da Vida Real”

Se eles soubessem que eu estou grávida…

«romance

Não tardou a acusar os sintomas de gravidez. Quando o médico confirmou o estado, voltou para casa, comovidíssima. No ônibus, veio de pé, enquanto sujeitos fortes, atléticos, viajavam solidamente sentados. Pensou: “Se eles soubessem que eu estou grávida…” E só imaginava a surpresa maravilhosa do marido quando ela desse a notícia. À tardinha, chegou Guilherme. Deu-lhe um beijo frívolo na face. Já em mangas de camisa, sentou-se para ler, no jornal, a página de futebol. Então, nervosíssima, os olhos marejados, Regina diz:
– Eu estou!
– O quê?
Baixa a cabeça
– Vou ter neném!
Guilherme encostou o jornal, atônito: “No duro? Batata?”
Na sua emoção, na sua candura, Regina suspira:
– Assim disse o médico. Garantiu.
Apanhou, de novo, o jornal; rosnou:
– Que espeto!
Passado o encanto da lua-de-mel, via na maternidade só os aspectos desagradáveis, sobretudo o problema econômico. Perdia muito dinheiro no jóquei, na sinuca e… Continuou a ler o jornal de cara amarrada.»

Extracto de “A Vida como ELA é…” de Nelson Rodrigues

Mortalidade Infantil em Portugal e nos E.U.A

Portugal é um dos cinco países que mais notáveis progressos fez na redução da taxa de mortalidade desde 1970. No relatório de 2008 “Cuidados de Saúde Primários – Agora mais do que sempre”, da Organização Mundial de Saúde (OMS), salienta-se que “o desempenho de Portugal para reduzir a taxa de mortalidade em várias faixas etárias é dos mais consistentes e bem sucedidos nas últimas três décadas”.

Neste relatório da OMS pode constatar-se que, entre 1970 e 1980, em Portugal a mortalidade perinatal foi reduzida em 71%, a mortalidade infantil em 86%, a de crianças em 89% e a mortalidade maternal em 96%.

A mortalidade infantil (óbitos de crianças nascidas vivas que faleceram com menos de um ano) é sem dúvida um dos indicadores por excelência da qualidade do sistema de saúde e mesmo da qualidade de vida de um país. Apesar de todas as críticas que lhe são feitas, este progresso denota que o acesso aos cuidados de saúde em Portugal tem melhorado substancialmente nas últimas décadas.

Por mais surpreendente que possa parecer, a trajectória de Portugal é exactamente oposta à dos Estados Unidos (E.U.A.), por exemplo. Enquanto em 1960 os E.U.A. ocupavam a 12.ª posição no ranking mundial da mortalidade infantil, Portugal, nesse ano, estava num sombrio 35.º lugar. Segundo dados de 2004 do Centers for Disease Control and Prevention, Portugal passou a ocupar o 10.º lugar nesse ranking e os E.U.A. o 29.º.

Este percurso inverso ainda se torna mais parodoxal quando se consideram as despesas com saúde per capita em Portugal –  1.897$ – e nos E.U.A. – 6.096$.

Segundo a OMS, o progresso registado em Portugal ficou a dever-se à aludida melhoria “no acesso às redes de saúde, que foram expandidas”, a “um compromisso político sustentável” e a “um crescimento económico que permitiu continuar a investir no sector de saúde”.

Nos E.U.A o debate sobre as causas do seu mau desempenho distribui-se por vários temas, desde a obesidade ao consumo de drogas, a falhas generalizadas no sistema de saúde e a um aumento dos partos prematuros (1), muitos dos quais por cesariana (2).

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1) De 9% de todos os partos em 2000, para 12,7% em 2005;

2) Possivelmente 92% destes partos prematuros adicionais.

Fonte: New York Times, 15/10/2008; Editorial do New York Times, 19/10/2008, Diário As Beiras, 15/10/2008.