Verdade e mitos da criopreservação

«Quem são os pais que resistem, por muitos sacrifícios que tenham que fazer, a “comprar” um suposto seguro de vida para o seu recém-nascido, habilmente oferecido durante a gravidez ou mesmo à porta da sala de parto?

Não espanta, por isso, que os bancos de criopreservação de células estaminais sejam dos negócios que mais floresceram nos últimos anos, multiplicando-se como cogumelos as empresa e as propostas. As células estaminais embrionárias são, de facto, células maravilha.

Não diferenciadas, ou seja, como ainda não lhes foi atribuída uma função particular, são capazes de evoluir para substituir qualquer célula humana. Na prática, podem «fazer as vezes» de tecidos danificados, boicotando doenças mortais. São mágicas portanto.

Teoricamente, então, faria todo o sentido que os pais as conservassem, custasse o que custasse, como arma de reserva para vir em auxílio do seu filho, caso este desenvolvesse alguma das doenças que a medicina já começa a saber tratar através deste método.

Contudo, e aí é que está o cerne da questão, os especialistas recordam (mas as empresas tendem a colocar a informação em letras pequeninas) que raramente as células estaminais de alguém que venha a sofrer, por exemplo de leucemia, lhe vão poder valer, já que se encontram feridas do mesmo defeito que o levou a adoecer.

Ou seja, em termos práticos, são raras as situações em que poderá ser tratado por células homólogas. Sendo assim vista como «salvação» do próprio filho, a criopreservação não será o milagre que se apregoa, mas é perfeitamente verdade que pode ser (e já foi) no caso de um irmão ou de um familiar próximo.

Contudo, seriam ainda mais úteis num banco público a que, como acontece com os bancos de sangue e de órgãos, qualquer pessoa pudesse aceder. Esse banco teria um leque de oferta de células compatíveis muito maior, acabando por servir, e gratuitamente, todos os doentes que dele necessitassem, inclusivamente, claro, o nosso próprio filho.

O cientista Mário de Sousa já apresentara uma proposta neste sentido a Correia de Campos, que a recusou. Sócrates voltou ontem ao tema. Espera-se que as inevitáveis pressões dos interesses privados não o desviem da sua intenção.»

Fonte: editorial de Isabel Stilwell em Destak, 15-01-2009 

 

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