Um imperador curioso e uma tempestade eléctrica fundamental

Por vezes o labor do crítico é conduzido com tal apuro que supera em grandeza o próprio objecto criticado. Não sabemos se é este o caso da crítica que abaixo transcrevemos (parcialmente), porque desconhecemos a obra que deu azo a este texto. O que podemos dizer, sem sombra de dúvida, é que estas palavras valem de per si, sintetizando com maestria, em poucos caracteres, descobertas com oito séculos que se reinventam todos os dias. Um mimo!…

«Há cerca de oitocentos anos, o Sacro Império Romano tinha à frente do seu destino o Imperador Frederico II, um homem curioso, com espírito científico e que emprestou o nome a uma Universidade de Nápoles. Se bem que muito ocupado com estratégias e lutas militares e ideológicas, ainda encontrou tempo para se dedicar à investigação científica. Curioso, quis saber que linguagem adquiriria o ser humano se nunca ouvisse falar. Os métodos da investigação foram simples e claros: retirou das famílias uns quantos recém-nascidos e recomendou que se deveria fornecer-lhes apenas o suporte básico da vida: comer, beber e cuidados mínimos de higiene. De resto nada de mais nada. Que aprendeu? Nada do que esperava: as crianças morreram todas. Um crítico da época concluiu que o trabalho do Imperador foi em vão pois ninguém sobrevive sem mimos.

[…] A interacção genes ambiente é dramática, para bem ou para mal. Tecidos e órgãos podem sofrer irremediáveis modificações (o conceito de plasticidade), conduzindo a morbilidade e mortalidade. O neurónio é particularmente plástico. Ao nascer há 100 mil milhões de neurónios e 50 milhões de milhões de sinapses. Depois o número de neurónios pouco aumenta, ao contrário das sinapses que no fim do primeiro mês aumentaram vinte vezes, sendo então mil milhões de milhões. Pura e simplesmente não há genes em número suficiente para controlar tanta evolução que fica, então, à mercê do ambiente que não pode ser tóxico, que deverá ter o melhor suporte energético (leite materno) e assegurar a estimulação mais adequada (o amor de quem é mais crescido). Sempre que se acaricia ou mima de outra qualquer forma um bebé, gera-se uma tempestade eléctrica potenciadora da mais perfeita evolução e aperfeiçoamento neuronais.
O amor é nuclear na relação pais e filhos e deve fluir livremente em ambas as direcções, sem condições nem limites. Da parte da criança é sempre assim, há garantia absoluta. Da parte dos pais nem sempre, ainda que muito raramente, pois aesmagadora maioria ama os filhos e envolve-os em carinho e ternura.»

Fonte: Crítica do pediatra José Manuel Tojal Monteiro ao livro “Seis meses para toda a vida”, de Elisabeth Fodor, María del Carmen García-Castellón e Montserrat Morán. In Acta Pediátrica Portuguesa 2008:39(3):137-8.

Nota: sublinhados nossos.

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