João e Maria e a fantástica onomástica

O Público traz um bom artigo de Natália Faria sobre os nomes próprios mais atribuídos a bebés em 2008 e a questão da admissibilidade dos nomes em Portugal.

Publicam-se de seguida alguns excertos do artigo:

«A fase das Kátias Vanessas parece definitivamente enterrada. Maria foi o nome mais dado às meninas nascidas no ano passado, segundo o Instituto dos Registos e do Notariado (IRN). Do lado dos rapazes, João encabeça a lista dos nomes próprios mais escolhidos. Seguem-se nomes igualmente tradicionalistas como Rodrigo, Martim, Diogo, Tomás e Afonso. De volta às raparigas, a seguir ao Maria – que nos últimos anos se laicizou, deixando cair complementos como da Piedade, de Fátima ou da Luz – surgem Beatriz, Ana, Leonor, Mariana e Matilde. Até aqui, nada de controverso. Os problemas nesta matéria dos nomes a dar aos bebés começam nas excepções à regra. Um mergulho na Internet e sucedem-se as histórias de indignação como a daquele pai que viu recusado o nome Lira para a sua filha. Ou daquele outro que queria chamar Luís Figo ao bebé e esbarrou com a recusa do funcionário da conservatória.

Nestes casos, reclamar compensa, porque, como explicou ao PÚBLICO Ivo Castro, o especialista em onomástica que nos últimos dez anos tem trabalhado com o IRN na resolução de alguns destes conflitos emitindo pareceres, não há regras absolutas. A própria lista dos registos que classifica centenas de nomes como admitidos ou não-admitidos não é taxativa, resultando antes das consultas que, nos últimos sessenta anos, alguns pais foram fazendo ao INR e cuja análise obedeceu a critérios que poderão já estar desactualizados.
[…]
Lição a tirar: vale a pena reclamar. O pedido de consulta sobre a admissibilidade de um nome – que levará o INR a socorrer-se do parecer de um técnico de onomástica a quem cabe estudar a palavra do ponto de vista morfológico, gráfico, sociológico e cultural – custa 50 euros. “Metade das pessoas que refilam ganham”, incentiva Ivo Castro. Segundo este especialista, no início da década havia uma média de 200 reclamações por ano. Nos anos mais recentes, “tem havido entre trinta a quarenta reclamações por ano”. Este ano, “há 17 reclamações”.

[…] Para Ivo Castro, os portugueses até são tradicionalistas nos nomes que adoptam. “Não são muito de modas, o que não quer dizer que não haja modas pontuais de culto da personalidade que levam muitos pais a escolher o nome de uma personagem de telenovela ou de um jogador de futebol”. Nada de novo. Após a instauração da República, em 1910, alguns pais baptizaram os filhos com nomes como Aurora de Cinco de Outubro e Outubrina. Geralmente, “a geração seguinte tem o cuidado de não repetir a brincadeira”, segundo Ivo Castro, para quem as propostas de nomes incomuns são “uma dezena num milhar”.

[…] “Uma família pode dar nomes carinhosos aos seus membros mas não pode esperar que o Estado português tenha alguma coisa a ver com isso”, descarta o especialista, para quem o mais certo é que a criança vá mais tarde lamentar o mau gosto dos pais. Os números parecem dar-lhe razão, já que a maior parte dos pedidos de alteração de nome que chegam à conservatória são “para passar de um nome invulgar para um vulgar”*

Excertos do artigo de Natália Faria: “Há cada vez menos Kátias Vanessas, trocadas pelos tradicionais João e Maria“, Público, 05.07.2009.

Notas: *ênfase nosso; Na tabela acima apresentam-se os nomes próprios mais seleccionados pelos pais em Portugal durante 2008.

Mãe! – um poema de Almada Negreiros

   Mãe!
   Vem ouvir a minha cabeça contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!
   Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
   Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

   Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

   Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

   Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
   Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Poema de Almada Negreiros (1893-1970)

in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, pág. 1337.